• Stéfano Squerline

RESUMO HISTÓRICO DO CÃO DE GUERRA

Desde os mais remotos tempos o homem tem se organizado em sociedades, nas mais diferentes formas e configurações. Criando para si e para o seu clã leis e normas, costumes e tradições. Junto ao homem primitivo sempre posou a figura do cão (observado em diversas gravuras parietais e inscrições rupestres encontrados juntamente com fósseis em muitos sítios arqueológicos). De início seguindo o homem e seus grupos nômades em busca de restos de alimentos, com o passar do tempo estabeleceram-se elos até que, talvez acidentalmente, descobriu-se algumas de suas virtudes, tais como capacidade de trabalho através do condicionamento, camaradagem e lealdade. Com o início das primeiras lavouras às margens de rios e lagos, tornou-se fundamental para o homem defender seus domínios dos grupos que ainda viviam da caça e da coleta de frutos. Para tal tarefa, confirmou-se o auxílio do cão como ferramenta eficaz tanto para manter suas posses, como para companhia e para a caça.

Durante as mais diversas conquistas na antiguidade notou-se a constante necessidade do cão para que fossem executados serviços laboriosos a baixo custo, seja na condução de rebanhos, nas empreitadas em terreno adversário, na tração de trenós (ou ainda pequenas carroças), na condução e guarda de presos e principalmente na segurança de perímetros.

strutura, idêntica a de um corpo de tropa. Na paz, o Homem utilizou o cão principalmente na caça e na proteção as suas habitações e até sua carne serviu (e serve) de alimento para alguns povos. Após destacar-se em vaiadas atividades, o cão foi empregado na proteção e guarda de rebanhos, verificando-se que é o único animal que auxilia o homem a cuidar de outros animais. O elenco de atividades em que figurava foi grandemente ampliado dependendo dos hábitos, atividades de subsistência e proteção desenvolvidas pelos diferentes povos e mesmo em condições climáticas e ambientais onde se fixaram. Assim, em alguns lugares serviram para tração, como nas imensidões geladas da região do Ártico, figurando como principal meio de transporte até os dias atuais; em outros para a caça, inclusive para apanhá-la quando ferida, mesmo nas águas mais geladas; treinados para o salvamento de pessoas perdidas na neve e mesmo para a procura de pessoas em risco de afogamento em mares e rios. Outros serviram para o lazer do homem com atuação em espetáculos circenses para o seu divertimento, se bem que às vezes cruel, como no caso dos cães da raça Buldogue, criados especialmente para lutar contra touros (o seu nariz achatado permitia-lhes que respirassem enquanto mordiam). Outros ainda em atividade bem mais construtivas, porque não ressaltar, como por exemplo, guiar pessoas cegas e mesmo companheiros incomparáveis como animais de estimação da família, especialmente de crianças e servindo ainda como cobaias nas experiências científicas que visam o desenvolvimento das ciências médicas. Chegando à atualidade, a tomarem parte em projetos de pesquisas aeroespaciais (em novembro de 1958 os russos lançaram um satélite artificial, o Sputnik II tendo como tripulante a cadela Laica que acabou morrendo em seu interior). Eis mais alguns casos de emprego do cão ao longo da história:

01. Citados por Heródoto, grande historiador grego, os cães já faziam parte do cenário das lutas e pelejas da época.

02. Felipe da Macedônia os utilizou em muitas de suas conquistas.

03. Na Grécia e Roma já utilizavam em suas batalhas um molosso (um ancestral do Mastin ou do Rottweiler), adornado com uma coleira contendo cravos grandes e afiados (promovendo assim grande impacto psicológico, poder de destruição e, ainda, servindo para defender uma região vulnerável de seu corpo), entre os heróis de Maratona figuram Athena e seu cão.

04. Na Idade Média, muito utilizado para defender as caravanas de eventuais salteadores, os cães eram adornados ainda com armaduras confeccionadas de pequenas placas de metal assemelhando-se a escamas de peixe.

05.Átila, o Huno, também conhecido como o Flagelo de Deus, utilizava cães para auxiliar no serviço das sentinelas de suas tropas quando em campanha.

06. Na luta entre França e Espanha, teriam os espanhóis recebido ajuda do Rei Henrique VlII da Inglaterra, incorporando às suas fileiras cerca de 400 cães treinados para o combate. Carlos I Rei da Espanha, observou a quão valiosa foi à ajuda, incentivando as suas tropas a cultivar as técnicas de treinamento evidenciadas através dos cães, já citado anteriormente.

07. Frederico, o Grande, utilizou cães como estafetas na guerra dos 7 anos.

08. Napoleão, grande nome da arte da guerra, na campanha do Egito obteve êxito no trabalho com cães.

09. Muito utilizado pelos assírios, babilônios, egípcios, gauleses e romanos, o cão foi se adequando às mais variadas tarefas. Sendo manipulada a sua reprodução dentro de determinadas características visando sua utilização, surgindo daí indivíduos com características em comum, muitas delas devido a fatores externos como clima, relevo, vegetação, e outros a fatores como aptidão para pastoreio, guarda, caça, etc. Existem narrativas de que desbravadores espanhóis teriam trazido cães de caça para o Novo Mundo no intuito de não só praticar o nobre desporto da caça (na época), mas alertar para possíveis contatos com Silvícolas, sendo muito utilizado por ambos os lados na conquista do Alasca, Canadá e Oeste Norte-Americano. No Brasil Colonial utilizava-se o Cabeçudo (cães mestiços de Mastiff, Bull Dog e Blood Hound, que acabou originando o Fila Brasileiro) tanto na captura de escravos fugitivos (não raras vezes tomara-se em fim trágico para os escravos) quanto na condução de rebanhos de gado e, ainda, para caçar onças.

10. Em quadro pintado em 1892, J. P. Bugarta retrata um Cão Sanitário, antevendo o que ocorreria poucos anos mais tarde. Na guerra Russo - Japonesa, a Inglaterra vende cães sanitários à Rússia (Cães Sanitários eram animais fortes, utilizados para condução de medicamentos e com grande capacidade de localização de feridos nas mais complexas situações apresentadas num teatro de operações. De caráter nobre, nunca atacavam as pessoas, se metiam em rinhas ou fugiam ao estampido de uma granada).

11. Utilizados inúmeras vezes pela França em suas guerras coloniais fato observado em levantamentos feitos por volta de 1910.

12. Na guerra de Trípoli, os italianos os colocavam adiante de suas linhas de trincheiras, para que pudessem alertar no caso de aproximação do inimigo.

13. Na contenda Híspano-Marroquina, foi o cão largamente utilizado pelos marroquinos como isca (eram cobertos com capas e turbantes, e amarrados ao longo de suas defesas, confundindo assim os espanhóis).

14. Na 1ª Guerra Mundial (1914/1918), foram utilizados aproximadamente 400.000 cães nas mais diversas regiões e situações entre os países envolvidos.

15. D.C.Girardo, Capitão do Exército Italiano, realizou importante pesquisa no Kennel Club Italiano, chegando a conclusão que o Império Teutônico, que desde o ano de 1883 adotara em seus exércitos cães bem adestrados, em estudos posteriormente publicados no boletim do Kennel, mostram como a Itália entrou na guerra de 1914/1918 com 6.000 cães, quantidade acrescida em mais 35.000 ao longo da contenda, destinados aos mais variados serviços.

16. Mesmo antes do conflito, altos círculos militares da França e Itália consideravam a eficácia do cão utilizado com racionalidade no front.

17. Quase ao final de 1915, na França, surgiu a denominação oficial de Cão de Guerra. Os cães recebiam esta denominação após um processo de treinamento que variava entre 150 e 200 dias. Sendo que a grande maioria destes cães foram apanhados pelas ruas e seriam sacrificados. Tinham as mais diferentes origens e portes e, devido estarem sempre transitando pela cidade, possuíam algumas características que poderiam ser aproveitadas em situação de combate. Haviam cães de raça pura, que também possuíam suas virtudes, tais como: Alsaciano (ancestral do Pastor Alemão), Beaucerons, Briards, Bouvier de Flandes, Pastores Belgas, Pastores Ingleses, Collies, etc.

18. Foram utilizados pelos italianos, no ressuprimento de gêneros e munição para as tropas de montanha em campanha (utilizados Pastores Alemães e Belgas, de porte avantajado e com pelagem “café com leite” para assim suportar mais peso e melhor dissimular na neve), eram também selecionados os homens que fariam o trabalho de adestramento desses cães, eram homens dotados de afeto, paciência, firmeza e perseverança.

19. Foi pela falta de boa mão de obra que muitos bons cães caíram inutilizados antes de cumprir a sua missão, em muitos casos não houve treinamento apropriado e progressivo.

20. Haviam cães auxiliares de sentinelas (acusavam a presença inimiga entre 60 e 300 metros), não latiam, apenas eriçavam o pelo do dorso e moviam as orelhas em sinal de atenção. Cães patrulheiros (geralmente os mesmo auxiliares dos sentinelas), cães estafetas e de enlace (não possuíam qualquer tipo de temor relacionado a estampidos, qualquer vínculo com alimentos ou ainda outros cães, eram destinados e levar mensagens através da linha de batalha, os estafetas apenas iam, os de enlace iam e voltavam podiam cobrir grandes distancias em pouco tempo), cães interceptadores (perseguiam os cães estafetas e de enlace, cães grandes, fortes e brigões), cães de tração e cães de tiro (transportavam diversos gêneros e ainda munição, fosse presa ao corpo, fosse puxando um carrinho ou trenó), cães sanitários (já comentado), cães ratoeiras (detestavam roedores, eram utilizados para controlar os ratos que infestavam os depósitos, alojamentos, porões, trincheiras, etc. Destaque que para o Schnawzer Standard, Bulldog, Fox Terrier e ainda o Bull Terrier).

21. Raramente fora concedida uma medalha a um cão, pois teme–se a repercussão de conceder uma medalha a um animal, para muitos seria ridículo.

22. Várias foram as técnicas empregadas no adestramento, variando muito da criatividade dos adestradores e da forma como seriam empregados.

23. Em meados de 1939, vários países europeus mantinham pequenas forças com cães de guerra, mas somente, até então, a Alemanha havia desenvolvido um plano de adestramento em grande escala, buscando melhorar não somente a parte tática, mas os padrões das raças utilizadas, permitindo assim, contar com 200.000 cães aptos o desempenhar atividades militares (em sua grande maioria, pastores alemães).

24. Durante a 2ª Guerra Mundial foram adestrados e utilizados pelos Estados Unidos, cerca de 10.500 cães, e postos em atividades internas e externas. Para atividades externas foram organizados e distribuídos em 15 Seções de Cães de Infantaria. Sendo: 07 Seções na Europa e 08 Seções no Pacífico.

25. Incorporados ao 5º Exército na Itália, alguns cães cumpriram diversas missões de enlace e exploração, e ao término do conflito, passaram a compor um seleto grupo de sentinelas.

26. No final de 1943, vários cães se destacaram em combates em área de densa vegetação, como na Nova Guiné.

27. Milhares de cães foram utilizados pelos russos, com notória atuação nas forças armadas. Destaca-se o modo rápido como foram treinados e empregados centenas de cães equipados com cargas explosivas que, buscando comida sob blindados alemães, explodiam, inutilizando assim, a viatura em foco. Muito utilizado ainda na guarda de campos de prisioneiros.

28. Para as tropas de infantaria, os Ingleses destinaram 04 cães e 02 adestradores por batalhão, utilizando-os das mais diversas formas. Em Melton Mowbray na War Dogs Training School se preparavam cães para a detecção de minas, que quando bem preparadas com cobertas adequadas, escapavam da detecção eletrônica e mecânica.

29. Na Itália surgiram os cães pára-quedistas, no Batalhão Paraquedista San Marco (Marinha), com seu batismo de fogo no Ilha de Céfalo (Albânia), logo sendo convocados a atuarem na antiga Iugoslávia. Ao Norte da Itália, existiam os cães de carga, que levavam ¼ de seu peso em víveres, medicamentos e munição a regiões montanhosas, transpondo todo tipo de obstáculo.

30. Havia na Itália centros de adestramento de cães de guerra pára-quedistas em Turquina, Viterbo e Tradate.

31. Na Alemanha Nazista, em cada escola de pára-quedistas havia uma seção de cães.

32. 0 Japão, desde a Guerra da China, havia adotado cães em Nan King. Na campanha do Pacifico foram utilizados em suas fileiras, treinados neste importante Centro de Adestramento um grande número de cães, tão boa foi a reputação deixada nas lutas anteriores.

33. No Pós-Guerra, foram criados diversos centros de treinamento, entre eles o de Lengries (Alemanha), em 1946, tendo como missão guarnecer depósitos de munição.

34. Em 1948, foi criado um centro de adestramento no quartel de Joffre, em Rastatt (França), com 200 animais.

35. Adotados pelas Forças Aéreas da França e da Inglaterra, grandes números de cães compuseram equipes de rondas e sentinelas, grande exemplo foi em Staverton Gloucestershire.

36. Em 1953, no Quênia, foram utilizados cães a fim de se evitar o aumento de atentados terroristas noturnos pela organização terrorista africana Mau-Mau.

37. Também foram utilizados cães na guarda de diversas instalações no decorrer da construção do Canal de Suez.

38. Antes da Guerra da Coréia, as forças americanas possuíam em Seul uma centena de cães, utilizados como sentinelas de pontos vulneráveis. Uma vez declarada a guerra, passaram a compor em conjunto ao 8º Exército.

39. A 26ª Seção de Cães Exploradores de Infantaria foi lembrada pelo Departamento de Guerra como: “A 26ª Seção de Cães de Guerra de Infantaria é citada por uma conduta meritória excepcional na missão de um serviço sobressalente em apoio direto nas operações de combate na Coréia durante o período de 12 de junho de 1951 a 15 de janeiro de 1953. A 26ª Seção teve, durante seus serviços na Coréia, a participação em patrulhas de combate, apoiando as ações com os serviços dos condutores de cães exploradores altamente instruídos. Os membros da 26ª Seção, participando de ações, eram colocados nos locais mais vulneráveis da formação da patrulha, em observação às aptidões especiais dos cães, sendo vantajosas ao largo do dificultoso e ardoroso serviço, a 26ª seção nunca falhou com aqueles com quem tenha trabalhado, mostrando conscientemente uma sobressalente devoção para a tarefa de levar a cabo sua missão e ganhar no campo de batalha um grande respeito e admiração estabelecidos como uma unidade de grande importância do 8” Exército. A sobressalente atuação em suas tarefas e espírito invariável exibido pelo pessoal que esta Seção reflete maior que eles mesmos e o Serviço Militar dos Estados Unidos, Comando do 8º Exército da Coréia (18 de janeiro de 1953). Na Coréia, foram feitos levantamentos nos quais, se dedica a diminuição de 60 % das baixas ao Corpo K-9.

40. Das experiências da Coréia e de Málaca, a Austrália aumentou sua dotação de cães de guerra e criou seções de cães paraquedistas.

41. Largamente utilizados pelos franceses na Indochina (Hotschiminhs), cães pára-quedistas e cães exploradores.

42. Utilizados pela ONU no Congo em múltiplas atividades.

43. No período da 2ª Grande Guerra e Pós-Guerra foram utilizados cães nas mais variadas missões: Cães de Guerra de Exploração (poderiam perceber o inimigo entre 75 e 200 metros, evitando se assim, muitas emboscadas), Cães de Guerra para Guarda (calcula-se que 70 % do efetivo era utilizado para guardar instalações, presos, munições, aeroportos, etc.), (Cães de Guerra de Enlace, uma das utilizações mais clássicas), Cães de Guerra Sanitários (foram utilizados pela Alemanha perto de 100.000 cães sanitários), Cães de Guerra Farejadores de Minas (utilizados por alemães, ingleses e americanos, tinham como missão detectar minas não metálicas e ainda as bem colocados, o que pelos meios mecânicos era impossível localizar), Cães de Guerra Paraquedistas (assim como o soldado pára-quedista, os cães também atuavam atrás das linhas inimigas, a primeira utilização de um cão pára-quedista foi durante a guerra civil espanhola).

44. Enquanto parte das tropas americanas alocadas no Afeganistão se preparava para voltar para casa nos próximos meses, o batalhão canino ganhou reforços. Em 2007, nove cães de faro de explosivos faziam parte das fileiras americanas no país, passando em seguida para 350, com a expectativa de chegar a 650 até o fim daquele ano. No total, o exército americano contou com cerca de 2,7 mil cães em serviço. Antes do ataque às torres gêmeas, em 2001, esse número não passava de 1,8 mil. Os cães eram usados em perseguições, rastreamentos, procura e resgate, além de proteção das tropas. No entanto, esses soldados de quatro patas têm sido usados cada vez mais para localizar artefatos explosivos caseiros, principal causa de morte de americanos no país. Até agora, são o meio mais eficiente de detectar explosivos. Entre as raças escolhidas, sobressaem-se os pastores alemães, belgas e holandeses(agora é neerlandeses!!!!). Devido ao seu faro apurado e temperamento não agressivo, os labradores também são uma boa escolha entre os militares norte-americanos em campanha no Oriente Médio. Os cães acompanhavam as tropas, 100 metros a frente, como verdadeiros detectores de minas. Treinar um cão para isso não era barato: Cada um custando cerca de US$ 40 mil para o exército americano.




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